Depois de 5 semanas de trabalho no Hospital Father Muller que, como já explicámos num post anterior, é intermédio entre um hospital público e um privado (e por isso não tão diferente dos nossos como queríamos ver aqui na Índia) decidimos ir ver como se trabalha num verdadeiro hospital público, que no caso de Mangalore é o Wenlock Hospital. Sempre que dizíamos no Father Muller aos médicos de lá que íamos estagiar para o Wenlock a reacção era a mesma: caras de choque e a pergunta "mas porquê? vocês são doidos!".
Nos primeiros dias que passámos no Hospital Wenlock ficámos sem perceber o porquê dos comentários. Para começar tratámos das burocracias do costume para obter a autorização da Directora do Hospital, mas desta vez muito facilitadas pela Dra. Susan D'Souza, que conhecemos por ser mãe de um interno que estava na nossa equipa na Medicina Tropical e que é Oftalmologista neste Hospital. Foi uma das pessoas que mais gostámos de conhecer, dentro e fora do Hospital.
Levou-nos primeiro a conhecer as várias vertentes do Hospital, incluindo o Hospital Pediátrico, novo e com equipamentos de ponta, que foi financiado por uma empresa privada e cedido ao sector público, que o gere.
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| A fachada do recente edifício da Pediatria do Hospital Público de Mangalore |
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| A Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais, bastante bem equipada. |
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| Um dos bebés prematuros que são monitorizados nesta Unidade |
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| Antes de entrar na Sala de Operações da Pediatria lê-se a mensagem "Entrem aqui com humildade e deixem à porta não só os sapatos mas também a raiva, o ego e o orgulho". |
Estivémos também na Maternidade, que está metade de pé metade em demolição, por estarem a aumentar as áreas do Hospital. Num país com uma das taxas de natalidade mais altas do mundo, as maternidades têm uma afluência enorme, o que pudémos comprovar pela lotação esgotada das enfermarias do Hospital, pelo número de partos mensais (cerca de 400) e pelo número de grávidas que esperavam pela hora do parto... No dia em que estivemos na Maternidade, à hora de almoço já tinham nascido 8 pequenos indianos!
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| Entrada da Maternidade Lady Goschen Hospital |
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As consultas externas. O médico está numa mesa ao centro e à volta reúnem-se as doentes, à espera pela sua vez.
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As enfermarias com mais do que uma grávida/mãe por cama...
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| Os corredores do Hospital... |
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| ... que servem também como enfermarias! |
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| A primeira impressão digital. |
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| Mas não era só de doentes que o Hospital estava cheio! |
Aqui a determinação do sexo da criança durante a gravidez é proibida. Na Índia, nas famílias mais tradicionais, após o casamento, a mulher vai viver para casa da família do marido e é esperado que os pais da noiva lhes dêem um dote pelo casamento, o que muitas vezes significa darem uma grande parte do que têm à família do noivo. Assim, tem-se assistido a inúmeros casos em que as famílias, para evitarem terem que se colocar em situações de dívida e pobreza devido aos casamentos das filhas, abortam com meios rudimentares por si próprias ao saber que o bebé é do sexo feminino.
Para evitar este problema é proibido por lei que os profissionais de saúde informem os pais sobre o sexo da criança antes desta nascer.
À entrada do Hospital existe uma banca com uma enfermeira que faz a vacinação das crianças ainda não imunizadas contra a poliomielite, mantendo assim esta doença erradicada do país.
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| No centro do Hospital, as famílias das pacientes lavam e secam as roupas. |
De seguida foi a vez de conhecermos o serviço de urgência do Hospital, a "Casualty" no edifício principal, e foi aqui que começámos a perceber os comentários que ouvíamos antes.
A sala da urgência tem cerca de 15 camas e estão presentes várias enfermeiras na sala. A nível médico, apenas estão na sala estudantes de Medicina, do último ano como nós, que vão resolvendo os problemas como podem, colocando cateteres, algálias, fazendo ECGs e prescrevendo medicação (a que existe), a maior parte das vezes sem terem acesso a qualquer processo médico ou a história clínica dos doentes. Existem médicos responsáveis pela Urgência que apenas se dirigem lá quando chamados pelos estudantes, no caso de haver algum problema que não consigam resolver.
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| Uma das marquesas de exame da Urgência. |
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| Medicamentos disponíveis na sala da Urgência |
Quanto à higiene, não existem máscaras e as luvas são para serem muito bem geridas.
Aqui o trabalho dos enfermeiros é realmente de alto risco. Vimos algálias serem colocadas sem luvas, pessoas com suspeitas de tuberculose (e não há mascaras...) e colocações de acessos venosos com sangue a escorrer para as mãos (sem luvas) da enfermeira, que inclusive tapava a torneira com os dedos para o sangue não sair... um filme!
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Em algumas zonas do Hospital, por motivos de higiene... anda-se descalço!
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| Posters científicos em hindu |
Os restantes dias foram passados na Medicina Interna com o Director do Departamento de Medicina, um médico e professor de grande reputação aqui, já com 6 livros médicos escritos por ele e sendo um dos revisores de livros que usamos regularmente, como o Bates, de exame físico. As manhãs começavam no escritório dele, com ele a colar 9 folhas A4 umas nas outras para nos mostrar "a magia", como ele lhe chamava e que seria 1h30 de Fisiologia e Patologia cardíaca e renal, ensinadas bem ao estilo Dr. Najeeb!
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| A preparação da aula... |
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| A aula ao estilo Dr. Najeeb! |
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| O resultado final. |
As rondas eram partilhadas com outros estudantes de Medicina e íamos tentando responder o melhor possível às infinitas questões que são colocadas sobre cada paciente. Eles são realmente bons no que toca ao exame físico, até porque muitas vezes não têm acesso fácil a Radiografias, Ecografias e outros exames que temos em Portugal muito mais disponíveis. Assim, raramente se acaba de fazer a história do paciente e o exame físico sem um diagnóstico praticamente definitivo, presumido através da experiência clínica neste contexto de escassez de recursos, o que acaba por ser uma óptima aprendizagem para nós!
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| A vista do Hospital... |
Nesta semana que passámos no Hospital Wenlock, a Dra. Susan foi a pessoa de referência para nós, mas não se ficou por estar connosco no Hospital. Como percebeu que gostamos de viajar fez questão de nos levar a alguns sítios giros por perto que ainda não tínhamos conhecido e também a experimentar mais algumas iguarias da cozinha indiana!
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| Entrada de um templo hindu em Mangalore |
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| O jardim zoológico de Pilikula... |
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| ... e as suas maiores atracções. |
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| Thali do Norte da Índia (à esq) e do Sul da Índia (à dta). Cada prato é uma combinação de pequenas porções de comidas típicas de diferentes zonas da índia, que se vão misturando (sim, com a mão direita!) com o arroz (ao centro) ou com naan ou parota (tipos de pão). |
A Dr. Susan levou-nos também a conhecer sítios típicos em Mangalore onde se fazem os principais produtos da região.
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| Filipe, devias levar a moda do Lungi para Portugal! Ou pelo menos a dança... |
E com esta experiência deixamos Mangalore.
Foram 6 semanas que vão deixar saudades. Os estágios nos Hospitais, os passeios pelo Sul da Índia, a comida... e sobretudo as pessoas. Essas são as que vão deixar mais saudade.
Até um dia, Mangalore!